Cultura Marcone Hilton
Crônica presente no livro "Reminiscências Gastronômicas"
Bode Guisado
20/06/2023 18h01
Por: Redação

Outro dia, me deu vontade de comer um bode guisado, acompanhado de uma salutar farofa de cuscuz. Atente, leitor: não é sempre que me batem esses desejos incontroláveis, é bom dizer. Este, inclusive, possui fins educativos, como se verá ao longo desta homilia. E não há uma única vez que eu resolva preparar um bode pra não me bater com histórias sui generis, como a que se seguirá. Portanto, seu projeto de demolay, desça do lombo do caprino e sente no chão, que lá vem a história.

Há alguns dias, recebi um vídeo dum cidadão indignado, com cara de poucos amigos, descendo o malho na jornalista Ana Paula Padrão, apresentadora do empolado programa de entretenimento (e não de culinária) MasterChef, que largou a seguinte sandice em rede nacional, do alto de sua incivilidade, acerca do bode. Às aspas:

― (...) No interior de Pernambuco, por exemplo, é um prato de fome, é um prato de quem tem muito pouco.

Oremos:

Não apenas a criatura em questão destila uma sanha classista, como demonstra raro desconhecimento do tema. Pois saiba, Ana Paula, que o bode mata a fome do pobre e das elites da mesma forma que você mata a sua, comendo sua carne de soja transgênica dos Andes – e ainda aposto um Queijo Canastra (do verdadeiro) que o bode é muito melhor. Ignora, também, o fato de que o leite caprino é mais saudável e menos propenso a causar alergias em infantes que o bovino, razão pela qual os pediatras o recomendam tão frequentemente. Entonces, minha querida Ana Paula, desça do seu Vizzano (eu sei que você usa Louboutin, mas não rimava) e aprenda que, de "mamano" a "caducano", no Nordeste brasileiro o bode ninguém anda dispensando...

Mas derivo: por causa dessa bendita história da Ana Paula, fiquei com vontade de comer um bode guisado. Claro, bode no sertão da Bahia ainda é mais barato que a carne de boi. E, como costumava dizer meu pai, hoje as coisas estão todas "pela hora da morte". Para minha alegria, contudo, fui ao mercado e achei o quilo do quarto traseiro por R$ 25. Alvíssaras, clamores e regozijos – em meu bolso, pelo menos. Pois comprei o bendito do quarto traseiro e fui até a minha mui humilde residência cuidar de prepará-lo, já que, bode, é trabalho dobrado no preparo – e já lhes explico o porquê.

Pois muito bem: já lhes contei sobre o calor que faz aqui, no oeste baiano? Além das "benesses" climáticas proporcionadas pelo desmatamento, Bom Jesus da Lapa ainda conta com a singular presença do morro no qual se encontra a gruta santa que, segundo soube, é feita não "de pedra e luz", mas de um metacalcário escuro, um mineral quase preto, que atrai (e irradia) muito, mas MUITO calor. Outro dia, mesmo, acusei meu compadre de mentiroso, quando este disse que, em Setembro de 2020, a temperatura aqui bateu 43°C. Lógico, eu não teria mesmo como saber, já que estava internado aí mesmo, em Uberlândia, com Covid-19. Mas bateu, sim – e bate, com alguma regularidade, entre a primavera e o verão. Esse calor, aliás, trouxe problemas de toda sorte em minha casa, porque o governo de então havia aumentado de tudo – menos a renda do pobre. Então, a CEMIG daqui (conhecida como COELBA) se aproveita do ensejo e segue me provocando mini infartos, toda vez que a maldita conta chega, graças aos ventiladores ligados 24h/dia.

Pra piorar, a minha filha do meio não colabora: aprendeu a safadeza de subir na cômoda do quarto para encontrar o controle do ar-condicionado (que só usamos aos domingos, feriados e dias santos) e ligá-lo. No dia em que comprei o bode, por exemplo, estávamos eu, sua mãe e avó, por volta de umas 20h tomando café na sala – sim, porque o nordestino é, antes de tudo, um masoquista: não importa a temperatura ambiente, tomamos café pelando de quente. Mas dizia: a pequena saiu de fininho, pegou o controle do ar e se deitou, em nosso quarto, pra relaxar. Levantei-me da mesa, adentrei o recinto e dei de cara com a folgada estirada na minha cama. Por óbvio que protestei:

― Agora foi que lascou, eu virei sócio da Coelba, Dandara?

― Papai, vai pra sala, você tá me atrapalhando de descansar.

Três anos de vida e a safadeza de uma veterana. Voltei pra sala, ora essa. Acabar com o descanso da bonita é que eu não iria...

No dia seguinte, prepararia o bode logo cedo. Daí que levantei, às 05:30 para, depois de tê-lo aferventado, com muitas folhas de louro, tirei o bicho do fogo e deixei descansando para poder temperar. Cortei ali o restante das coisas para a farofa (tem a receita em outra crônica, vá apertar a mente do cão) e hidratei a massa do cuscuz. Quando fui cuidar do café, já batiam seis e meia da manhã. E, no que a cafés da manhã concerne, a produção local e sustentável de agricultura familiar nos permite um mínimo de fartura: pães, manteiga, ovos de galinha d'angola, queijo artesanal, geleia caseira, biscoito frito (salgado e doce), beiju, sucos com frutas da estação, café fresquinho, leite integral, leite em pó, umbuzada, iogurte, granola...

Já próximo às sete da manhã, começo a ouvir uma gritaria vinda do meu quarto:

― Não, Dandara, que inferno! Sai daqui, menina! Dandara, eu vou lhe bater, saia daqui e vá tomar café com seu pai!

E, à mesa, segui, tomando meu cafezinho, na calma e tranquilidade que sempre me foram peculiares. Daí a pouco, minha mulher chega, pisando duro e cuspindo abelhas:

― Que diabo, rapaz, a gente não pode nem ir ao banheiro em paz nessa casa!

― Mas o que foi que se sucedeu, mulher?

― O que foi?! Essa menina, Marcone! Essa menina, que abriu a porta do banheiro e ficou lá dentro, enchendo meu saco, dizendo que queria ajudar a limpar minha bunda!

― E depois eu vou ajudar o papai a fazer o bode. Né, papai?

Marcone de Sousa é baiano, escritor e autor dos livros "Confesso que Xinguei" e "Reminiscências Gastronômicas"