Já perceberam que o mundo vem se tornando um lugar cada vez mais “chato”? Se o termo chato não for o mais apropriado, também posso substitui-lo por “intolerante”. Se antes havia ao menos o respeito, a compreensão, a empatia pela opinião do outro quando não se concordava com o conteúdo explicitado, hoje em dia o que se percebe que prevalece é a intolerância, a negação e o radicalismo. Tudo para defender o seu ponto de vista.
Isso vale principalmente na área política, mas tem sido cada vez mais frequente em discussões envolvendo temas relacionados à religião, etnia, diversidade, meio ambiente. E, há alguns anos, a polarização também chegou à área de tecnologia.
Só que essa polarização tecnológica a que me refiro não diz meramente sobre discursos de ódio e disputas ideológicas. Trata-se de uma prevalência, na verdade uma disputa desigual entre as grandes corporações e as pequenas e micro empresas por ocupar espaços no mercado mundial e fazer prevalecer suas soluções tecnológicas.
Fica cada vez mais nítido que o poderio das big techs tem provocado um afunilamento dos serviços prestados ao consumidor comum por meio das plataformas digitais. Quer buscar uma informação? Dá um Google. Está procurando um livro? Vai na Amazon. Sua empresa necessita de uma ERP (sistema de gestão) para melhorar a produtividade e conectividade com os clientes? Que tal uma Siemens, IBM ou Totvus? Existem outros nomes, evidente, mas a questão onde quero chegar é que a briga entre gigantes por uma maior fatia no mercado tem devorado muitas iniciativas com potencial para crescer e se tornar boas alternativas ao consumidor.
Entretanto, quando inovações surgem a partir de empresas mais modestas, ou são adquiridas por uma big tech e passam a incorporar o escopo da corporação ou simplesmente somem do mapa, desencorajadas pela pressão e o discurso de que a tecnologia lançada pelas grandes já contempla tal prestação de serviço.
O resultado, muitas vezes, é a eliminação da concorrência e a perda do potencial de inovação que elas proporcionam.
A Nuance Communications, uma empresa norte-americana de inteligência artificial, foi inovadora no desenvolvimento de um software de reconhecimento de voz, o Dragon. Tal potencial fez brilhar os olhos da Microsoft que, em 2021, comprou a potencial concorrente, o que foi considerado a segunda maior aquisição de sua história – a primeira foi a compra do LinkedIn, em 2016. Estamos falando em dezenas de bilhões de dólares.
Outro exemplo do poderio avassalador das gigantes tecnológicas é retratado na série “Batalha Bilionária: O caso Google Earth”, da Netflix. Nela, é contada a história de como nasceu o poderoso navegador planetário. Ao contrário do que se acreditava até então, uma das principais ferramentas do Google não nasceu no Vale do Silício, mas sim na Alemanha no início dos anos 1990. E tinha o nome de Terravision. Segundo a história, a empresa norte-americana teria “roubado” a ideia de uma dupla de jovens visionários – um alemão e um húngaro. Anos depois, os reais criadores do Terravision, então entraram em disputa judicial contra o Google por quebra de patente (acabaram perdendo a ação devido a falta de uma perícia técnica que auxiliasse os advogados).
As redes sociais são um dos principais responsáveis pelo fomento da polarização. E aqui, neste caso, não se restringe apenas ao tema tecnologia. O algoritmo se encarrega de entregar um conteúdo condizente com o perfil de cada usuário, seja nas suas preferências políticas, culturais, sociais, nas relações de compra, mantendo cada seguidor dentro de sua bolha. E aí, sim, entra o poderio tecnológico com as redes sociais nas mãos de poucas corporações que dominam a maioria do mercado e ditam o que as pessoas irão visualizar e interagir.
Neste contexto, até a criatividade fica limitada uma vez que a tendência quando se está numa rede social é seguir o que a maioria faz. Veja, por exemplo, as dancinhas do Tik Tok e os vídeos com áudio chiclete no Instagram. Se você curte, segue, pratica, tá tudo certo. Não há nada de errado nisso. A rede social tem seu papel de entretenimento ao fornecer acesso a conteúdos diversos. A questão que não se pode desconsiderar é que o nosso contato acaba se restringindo aos vídeos, informações e opiniões que reforçam nossas crenças – muitas vezes, crenças limitantes. Ou seja, que se encaixam perfeitamente em nosso mapa de mundo. Daí se acentua a nossa percepção de que estamos certos e o outro está errado, o que reforça o conceito da polarização.
Mas, como diz um dos mais básicos pressupostos da PNL (Programação Neurolinguística), “Mapa não é território”. Nós reagimos de acordo com o nosso “mapa” interno de mundo, e não como ele existe de fato. Antes de esperar que os outros mudem seus pensamentos e reações, o “mapa” interno deles deve mudar.
Se quisermos fugir da polarização tecnológica, será necessário se alimentar de outros conteúdos além daqueles que nos são oferecidos pelos algoritmos. Será preciso encontrar uma forma de sair da bolha e buscar outros espaços onde a divergência e a pluralidade de ideias prevalecem. Também deve prevalecer o espírito inovador e ousado, assim como são as startups e tantos outros players pequenos que têm seu valor e buscam seu espaço em meio à essa guerra de gigantes.