Se nas duas décadas passadas a palavra da moda era globalização, a expressão que mais representa o atual momento talvez seja a era do digital, do mundo tecnológico. Para saber como o Brasil se posiciona neste cenário fui buscar informações e me deparei com duas situações que demonstram o abismo que nos separa de outras nações mais tecnológicas, apesar de todo o esforço que fazemos na área da inovação.
Dados divulgados no início deste mês apontam que o Brasil ocupa o 57º lugar no Ranking Mundial de Competitividade Digital, numa lista que compreende 64 países. O levantamento é feito anualmente pelo instituto suíço IMD e conta com a parceria técnica do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral (FDC). Em relação a pesquisa anterior, o Brasil caiu cinco posições, retornando aos patamares registrados antes da pandemia, em 2018 e 2019. E mais: houve piora nos principais itens analisados de um total de 54 indicadores.
A lista considera três aspectos principais: conhecimento, tecnologia e preparação para o futuro. Quero chamar a atenção para alguns dados, que mais adiante serão comparados a uma outra estatística que encontrei.
No ranking do IMD, os poucos destaques positivos do Brasil se restringem ao total de gastos públicos em educação (12º), representatividade feminina em pesquisas científicas (17º), produtividade em pesquisas de P&D (7º), robótica em educação e P&D (17º) e uso de serviços públicos online pela população (11º).
Na outra ponta da pesquisa, a experiência internacional da força de trabalho (63º), habilidades tecnológicas (62º) e estratégias de gestão das cidades para apoiar o desenvolvimento de negócios (61º) estão entre os piores resultados brasileiros.
Isso me leva a uma análise superficial, porém prática: se o país tem recursos suficientes para investir em educação mas peca nos critérios de desenvolvimento, há que se repensar na forma com que esses investimentos estão sendo aplicados e o tipo de política pública que vem sendo adotado. Neste caso, somente um esforço unificado do poder público e da iniciativa privada fará o Brasil alcançar o patamar de uma economia digital sólida e eficiente como a das nações que estão no topo do ranking.
Na avaliação de um dos próprios autores da pesquisa, a Fundação Dom Cabral, o Brasil precisa investir pesado na qualificação da mão de obra na área de tecnologia e em pesquisas no setor.
Força de vontade o brasileiro tem de sobra, e uma outra pesquisa também publicada recentemente comprova esse esforço. Dados divulgados em setembro pela Confederação Nacional da Indústria apontam que depois de 12 anos o Brasil voltou a entrar no ranking das 50 economias mais inovadoras do mundo. O país subiu cinco posições no Índice Global de Inovação (IGI), ficando em 49º lugar entre 132 nações.
O IGI é divulgado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual desde 2007, em parceria com o Instituto Portulans.
Nesta pesquisa, o país apresentou pontuações elevadas em indicadores como serviços governamentais online (14ª posição) e participação eletrônica (11ª). Também se destacou pelo valor de seus 16 unicórnios (startups com grande valor de mercado em dólares), aparecendo na 22ª posição, e por seus ativos intangíveis (31ª), obtendo bons resultados mundiais por suas marcas registradas (13ª) e pelo valor global de suas marcas (39ª).
Se tecnologia e inovação andam juntas, por que então o Brasil derrapa quando se trata de competitividade digital mas demonstra ser um país com propostas inovadoras para o setor?
Uma das possíveis respostas para a questão – a qual compartilho e já defendi neste espaço em outras edições - foi citada pelo pesquisador e jornalista bielorrusso Evgery Morozov, durante sua passagem pelo Brasil, em setembro. Ele defende que países como o Brasil devem buscar sua autonomia tecnológica ante ao poderio das big techs estrangeiras.
Mais do que a regulamentação das plataformas digitais, o pesquisador considera que a soberania tecnológica é pré-requisito para se alcançar a soberania econômica. E para se alcançar esse patamar o Estado é que deve liderar uma transformação no mundo digital capaz de enfrentar o poderio das grandes corporações tecnológicas. Ele citou o exemplo da China que passou a intensificar os investimentos em semicondutores (chips), infraestrutura digital móvel (5G) e IA, que são considerados elementos geradores de receitas em diversos segmentos produtivos.
O governo dos Estados Unidos, terra das principais big techs mundiais, já desencadeou uma ofensiva para tentar frear o ímpeto da China. Se vai conseguir conter esse avanço, é aguardar. O que é fato é que a China (19ª) aparece 38 posições à frente do Brasil no atual Ranking da Competitividade Digital.
Ranking da Competitividade Digital
Os 10 primeiros:
1 - Estados Unidos
2 - Holanda
3 - Singapura
4 - Dinamarca
5 - Suíça
6 - Coreia do Sul
7 - Suécia
8 - Finlândia
9 - Taiwan
10 - Hong Kong
Os últimos colocados:
54 - México
55 - Bulgária
56 - Peru
57 - Brasil
58 - África do Sul
59 - Filipinas
60 - Botswana
61 - Argentina
62 - Colômbia
63 - Mongólia
64 – Venezuela