Cidades Inovação
Terapia com bots de inteligência artificial é real
Novas formas de IA estão sendo projetadas para se tornarem terapeutas virtuais para quem se sente ansioso ou deprimido
19/02/2024 10h10
Por: Sthefano Scalon Cruvinel
foto: Divulgação

A tecnologia tem fronteiras? Imaginem, os cientistas vêm trabalhando arduamente para criar bots, sejam eles incorporados ou simplesmente algoritmos de máquina, que possam oferecer aconselhamentos para problemas, substituindo um amigo próximo ou um terapeuta. Isso mesmo, o divã agora já está dentro de uma máquina, um computador. E se for parar dentro de um robô? Já foi.

 

Um exemplo dessa inovação é o chatbot Woebot. Lançado em 2017, por especialistas em IA da Universidade de Stanford com a ajuda de psicólogos, o Woebot foi projetado para ser um amigo, terapeuta e confidente. Atualmente está disponível através de prestadores de cuidados de saúde e empregadores selecionados e para pessoas matriculadas em estudos em andamento. O bot de IA entra em contato com você diariamente para um bate-papo, monitora seu humor, joga e seleciona vídeos para você assistir, tudo a serviço do gerenciamento e melhoria da saúde mental. Ele faz perguntas como “Como você está se sentindo hoje?” e “Como está seu humor?”, tudo para provocar o tipo de introspecção regular que é a base da inteligência emocional.

 

O objetivo dos criadores do Woebot é não apenas fornecer contato diário e manter a saúde mental, mas também melhorar o trabalho dos conselheiros humanos. De acordo com cientistas, a IA tem uma vantagem distinta: você pode dizer qualquer coisa e o bot é incapaz de julgá-lo. A própria Alison Darcy, uma das psicólogas por trás do desenvolvimento do Woebot e fundadora e CEO da Woebot Health, disse haver muito ruído nas relações humanas, acrescentando que “o barulho é o medo de ser julgado. Isso é o que realmente é o estigma.”

 

E parece que a procura por terapeutas robôs caiu no gosto das pessoas. Outro exemplo é o Character.ai, renomada plataforma para criação de chatbots. Essa plataforma tem sido acessada por milhões de usuários na busca de consolo em bots terapeutas de IA, para apoio à saúde mental.

 

Entre o conjunto de personagens ficcionais e reais do Character.ai, o personagem que se destaca é “Psicólogo”, acumulando surpreendentes 78 milhões de mensagens, das quais, 18 milhões trocadas nos últimos três meses, a partir de novembro do ano passado.

 

Segundos consta, o cérebro por trás do bot “Psicólogo” é o estudante de psicologia neozelandês Sam Zaia, que expressou surpresa inicial com sua generalizada popularidade. Originalmente projetado para uso pessoal durante momentos em que os amigos não estavam disponíveis e a terapia tradicional era financeiramente impraticável, os usuários elogiaram o bot por fornecer conforto e assistência na navegação pelas emoções, sendo considerado por muitos um “salva-vidas”.

 

A plataforma Character.ai, com 20 milhões de usuários registrados e uma contagem diária de visitantes de 3,5 milhões, atrai principalmente indivíduos de 16 a 30 anos. E, embora essa plataforma seja preenchida por vários personagens - bots relacionados à saúde mental como “Terapeuta” e “Você está se sentindo bem?” -, já receberam milhões de mensagens sinalizando um interesse crescente no apoio à saúde mental alimentado pela IA.

 

Só que, apesar do foco da plataforma ser no entretenimento e na dramatização, o sucesso dos bots de saúde mental levanta questões sobre a sua eficácia. Uma psicoterapeuta chamada Theresa Plewman, depois de experimentar o bot “Psicólogo”, expressou reservas sobre sua capacidade de fazer suposições rápidas e fornecer conselhos em comparação com um terapeuta humano. No entanto, ela reconheceu que o imediatismo dos bots de IA pode ser valioso para aqueles que necessitam urgência no atendimento.

 

Também, muitos críticos levantam preocupações sobre os bots de IA que podem não ter coleta de informações abrangentes e fornecer conselhos tendenciosos ou inadequados. A empresa por trás do Character.ai, embora reconheça o suporte do usuário a esses personagens de IA, ressalta a importância de consultar profissionais certificados para aconselhamento e orientação legítimos.

 

Mas não há como ignorar que a onda de bots terapeutas de IA no Character.ai reflete uma tendência mais ampla no cenário digital, onde a tecnologia é cada vez mais utilizada para enfrentar os desafios da saúde mental.

 

Enquanto alguns alertam contra potenciais inconvenientes, outros veem esses bots como ferramentas valiosas para lidar com a pressão sobre os serviços públicos de saúde mental.

 

Existem notícias de pesquisas que apoiam a teoria de que as pessoas compartilharão com robôs coisas que não contarão a um terapeuta humano. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA na sigla em Inglês e que é um segmento do Departamento de Defesa dos Estados Unidos), está profundamente envolvida na pesquisa robótica e, em 2014, estudou as interações das pessoas com uma terapeuta virtual chamada Ellie, um avatar desenvolvido pelo Instituto de Tecnologias Criativas da Universidade do Sul da Califórnia.

 

Ellie foi colocada em prática testando 239 seres humanos divididos em dois grupos. Um grupo foi informado de que estava conversando com um bot, e o outro grupo foi informado de que havia uma pessoa real por trás do avatar. O interesse da DARPA no projeto visava avaliar o uso de um avatar/bot para tratar soldados com TEPT (Transtorno de Estresse Pós Traumático).

 

No experimento, os participantes que pensaram estar conversando com um robô tinham muito mais probabilidade de se abrir e revelar seus segredos mais profundos e obscuros, descreveu uma repórter que cobriu o teste, dizendo ainda que, inclusive, o descarte da ideia de um humano no local tornou as sessões mais produtivas.

Ao que parece, os robôs “companheiros” podem ser programados para tratar de uma ampla gama de doenças mentais e podem desempenhar um papel na manutenção da saúde. Os engenheiros podem programá-los para fazer coisas como sugerir atividades prazerosas ou atividades que levem a uma maior conexão social como forma de regular o humor em pessoas com transtornos de humor, como transtorno bipolar ou depressão.

 

Mas a pergunta é: será que algum dia os robôs podem ser programados para terem sempre uma resposta apropriada e relacionada ao contexto?

 

Essa é uma questão em aberto, se os robôs algum dia serão emocionalmente inteligentes o suficiente para sempre responderem adequadamente aos humanos.

 

Vejamos o exemplo do robô social Pepper, fabricado em parceria pela SoftBank e Aldebaran Robotics e apresentado em 2014 e vendido ao mundo em 2016. Ele busca tocar uma música favorita caso perceba uma expressão triste no rosto de seu dono. Contudo, a tristeza pode ser uma emoção altamente apropriada em alguns contextos. Assim, isso deve ser reconhecido e examinado tendo em vista como pode oferecer uma orientação genuína na consideração de um problema. Um robô como Pepper, que constantemente nos estimula a nos animar, possivelmente quando nossas emoções são completamente apropriadas, pode ser visto como intrusivo, paternalista – possivelmente até enlouquecedor, noutro tipo de situação.

 

Enfim, é uma questão em aberto se os robôs algum dia serão emocionalmente inteligentes o suficiente para sempre responderem adequadamente aos humanos.

 

Sou especialista em inovação e tecnologia, não em psicologia. Mas, baseando em pesquisas e psicologicamente falando, posso afirmar que a paleta de reações emocionalmente inteligentes na vida humana é excepcionalmente ampla. Pode incluir o exercício do humor num contexto e a escuta silenciosa noutro. E implica o aproveitamento dos nossos sentimentos mais íntimos para nos ajudar a adaptar-nos a um número quase ilimitado de situações e experiências.

 

Também exige que saibamos quando acalmar nossas emoções e quando expressá-las. Implica intuição, bem como análise crítica, e exige julgamento para saber em que confiar em qualquer circunstância. A única maneira de os robôs atingirem esse nível de sofisticação seria se eles próprios sentissem emoções. E, até que eles próprios tenham emoções, só serão capazes de nos fornecer uma companhia emocionalmente inteligente até certo ponto.

 

E esses são exatamente os tipos de desafios que os roboticistas, com a ajuda de psicólogos, estão tentando superar.