Quinta, 09 de Julho de 2026
14°C 27°C
Uberlândia, MG
Publicidade
Anúncio

Casal descobre que momentos íntimos em hotel na China foram gravados e divulgados na internet

Imagens captadas por câmeras escondidas em quartos de hotel circularam em sites e aplicativos com milhares de usuários; investigação aponta rede organizada por trás da prática

Redação 02
Por: Redação 02
06/02/2026 às 14h10
Casal descobre que momentos íntimos em hotel na China foram gravados e divulgados na internet

Em uma noite de 2023, Eric (nome fictício) navegava por um canal em redes sociais que costumava acessar para assistir pornografia quando, poucos segundos após o início de um vídeo, percebeu algo incomum. O casal que aparecia nas imagens — entrando em um quarto de hotel, deixando as bolsas e, depois, tendo relações íntimas — era ele próprio e sua namorada, Emily (nome fictício).

Três semanas antes, os dois haviam passado a noite em um hotel em Shenzhen, no sul da China, sem imaginar que estavam sendo filmados. As cenas íntimas haviam sido registradas por uma câmera escondida no quarto e, posteriormente, publicadas em sites e canais especializados em pornografia obtida sem consentimento. O conteúdo foi visto por milhares de pessoas.

Eric deixou de ser apenas consumidor desse tipo de material para se tornar vítima de uma prática que cresce no país asiático: a chamada “pornografia de câmera escondida”, que existe há pelo menos uma década na China, apesar de a produção e a distribuição de pornografia serem ilegais no país.

No Brasil, a legislação também considera crime divulgar imagens íntimas sem consentimento. Oferecer, compartilhar ou publicar fotos e vídeos com nudez ou conteúdo sexual sem autorização da vítima pode levar à responsabilização criminal, inclusive para quem apenas repassa o material.

As transmissões ao vivo feitas com câmeras escondidas mostram com clareza as camas dos quartos de hotel — Foto: Reprodução

 

Indústria clandestina e risco persistente

Mesmo com a proibição formal na China, o tema tem se tornado cada vez mais frequente nas redes sociais do país, especialmente entre mulheres que compartilham dicas para identificar câmeras escondidas em quartos de hotel. Algumas chegam a montar estruturas improvisadas dentro dos quartos para evitar serem filmadas.

Em abril de 2025, o governo chinês anunciou novas regras exigindo que hotéis façam inspeções regulares para identificar dispositivos clandestinos. Ainda assim, o risco permanece elevado.

Uma investigação do Serviço Mundial da BBC identificou milhares de vídeos recentes gravados em quartos de hotel e vendidos como pornografia em diferentes plataformas online. Grande parte desse material circula no Telegram, aplicativo proibido na China, mas amplamente utilizado para atividades ilegais.

Ao longo de 18 meses, a equipe encontrou seis sites e aplicativos promovidos na plataforma que afirmavam operar mais de 180 câmeras escondidas em quartos de hotel. Esses dispositivos não apenas gravavam, mas transmitiam imagens ao vivo.

Um dos sites monitorados por sete meses exibia conteúdo captado por 54 câmeras diferentes, cerca de metade delas ativas em tempo real. Com base nas taxas médias de ocupação dos hotéis, a BBC estima que milhares de hóspedes podem ter sido filmados sem saber.

Da curiosidade à vítima

Eric, morador de Hong Kong, afirma que começou a assistir a vídeos gravados secretamente ainda adolescente, atraído pela sensação de “realismo” das imagens. “A pornografia tradicional parece encenada demais”, disse ele, hoje na casa dos 30 anos.

A percepção mudou quando encontrou o vídeo com ele e Emily. Ao contar à namorada que a estadia do casal havia sido filmada e transformada em um vídeo de uma hora divulgado no Telegram, ela inicialmente achou que fosse brincadeira. Ao ver as imagens, ficou devastada.

Emily temia que colegas de trabalho ou familiares tivessem assistido ao material. O casal passou semanas sem se falar após a descoberta.

Rede estruturada e lucros elevados

A investigação também revelou a existência de uma rede organizada por trás da produção e venda desses vídeos. Um dos agentes mais ativos identificados pela reportagem usava o codinome “AKA”.

Fingindo ser consumidor, um repórter pagou uma mensalidade de 450 yuans (cerca de R$ 330) para acessar um dos sites promovidos por ele. Após o login, era possível escolher entre várias transmissões ao vivo que exibiam diferentes quartos de hotel. As imagens começavam a ser transmitidas assim que o hóspede inseria o cartão-chave e ligava a eletricidade do quarto.

Também era possível retroceder a transmissão e baixar vídeos arquivados. Em um dos canais no Telegram, que chegou a reunir até 10 mil membros, usuários comentavam em tempo real as imagens, avaliando a aparência e o comportamento dos hóspedes filmados sem consentimento.

Bibliotecas com mais de 6 mil vídeos editados estavam disponíveis mediante pagamento único, com registros que remontavam a 2017.

Com base no número de assinantes e nas taxas cobradas, a BBC estima que apenas um desses agentes tenha arrecadado pelo menos 163,2 mil yuans (cerca de R$ 110 mil) desde abril de 2025 — valor superior à renda anual média na China, de aproximadamente 43,3 mil yuans.

Câmeras escondidas em hotéis

A equipe conseguiu localizar uma das câmeras em um hotel de Zhengzhou, no centro da China. O dispositivo estava escondido em uma unidade de ventilação, apontado para a cama e conectado à rede elétrica do prédio. Um detector de câmeras escondidas, adquirido na internet, não identificou o equipamento.

Após a remoção da câmera, a notícia se espalhou rapidamente nos canais que comercializavam as transmissões. Em poucas horas, operadores anunciaram a ativação de um novo dispositivo em outro hotel.

Durante a investigação, cerca de uma dúzia de agentes semelhantes a “AKA” foram identificados. As conversas entre eles indicam a existência de níveis superiores na cadeia, chamados de “donos das câmeras”, responsáveis pela instalação dos equipamentos e pela gestão das plataformas de transmissão.

Mesmo com regras rígidas sobre venda e uso de câmeras ocultas, a reportagem constatou que é relativamente fácil comprar esses dispositivos em mercados de eletrônicos na China.

Dificuldades para remoção de conteúdo

Blue Li, representante da ONG RainLily, sediada em Hong Kong, afirma que a demanda por ajuda para retirar imagens íntimas da internet tem crescido. No entanto, a remoção do material se tornou mais difícil.

Segundo ela, o Telegram raramente responde aos pedidos da organização, obrigando a ONG a negociar diretamente com administradores de grupos que lucram com a distribuição dos vídeos. A plataforma afirmou que o compartilhamento de pornografia sem consentimento viola seus termos de serviço e que remove milhões de conteúdos prejudiciais diariamente.

Após ser questionado pela BBC, algumas contas usadas para divulgar o material foram excluídas, mas o site investigado continuava transmitindo imagens ao vivo de hóspedes de hotéis.

Trauma e medo

Eric e Emily seguem traumatizados pela experiência. O casal passou a usar chapéus ao sair de casa, com receio de ser reconhecido, e evita se hospedar em hotéis sempre que possível.

Eric afirma que deixou de consumir esse tipo de conteúdo, embora ainda verifique ocasionalmente os canais onde o vídeo foi publicado, temendo que volte a circular.

Eric e Emily passaram a usar chapéus sempre que saem de casa, com receio de serem reconhecidos — Foto: BBC

 

 
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Uberlândia, MG
27°
Tempo nublado
Mín. 14° Máx. 27°
26° Sensação
0.92 km/h Vento
24% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
06h46 Nascer do sol
17h49 Pôr do sol
Sexta
29° 15°
Sábado
30° 17°
Domingo
31° 19°
Segunda
27° 21°
Terça
25° 16°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,12 -0,58%
Euro
R$ 5,85 -0,65%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 343,587,28 +2,07%
Ibovespa
172,653,30 pts 1.22%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio