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Na política mineira, a fidelidade tem prazo de validade, a derrota eleitoral pode render promoção e a transparência ainda é tratada como inconveniência. Enquanto os vencedores repartem expectativas, os derrotados procuram uma porta aberta e os prefeitos administram promessas, o contribuinte continua

29 de Outubro de 2026

Lawrence Borges
Por: Lawrence Borges
29/10/2026 às 13h30
Na política mineira, a fidelidade tem prazo de validade, a derrota eleitoral pode render promoção e a transparência ainda é tratada como inconveniência. Enquanto os vencedores repartem expectativas, os derrotados procuram uma porta aberta e os prefeitos administram promessas, o contribuinte continua

TRIÂNGULO MINEIRO E ALTO PARANAÍBA

A JUSTIÇA MANDOU DESOCUPAR

Daniel Amorim, Rodrigo Falcão e Isaías Martins – Rede Social

Em Patos de Minas, Júlio César, Itamar André e Otaviano Marques receberam uma notícia que nenhum político gostaria de ouvir: a cadeira mudou de dono. A cassação da chapa do Republicanos por fraude à cota de gênero alterou a distribuição das vagas e abriu caminho para Daniel Amorim, Rodrigo Falcão e Isaías Martins. Os novos eleitos já foram diplomados, enquanto a posse aguarda os procedimentos da Câmara. A ironia é deliciosa, embora amarga para os atingidos: três vereadores fizeram planos para quatro anos e descobriram que a matemática eleitoral não respeita decoração de gabinete. A política ensina que o poder é passageiro. Em Patos, a Justiça resolveu cobrar a passagem antecipadamente.

FALCÃO SUBIU, A FILA CRESCEU

 

 

Luís Eduardo Falcão trocou a Prefeitura de Patos de Minas pela vice-governadoria e ganhou uma nova coleção de amizades. Como coordenador da transição de Cleitinho, tornou-se personagem importante na montagem do futuro governo. Deve ser impressionante a quantidade de lideranças que agora se recordam de antigas afinidades com o ex-prefeito. O telefone, certamente, passou a representar um instrumento de extraordinário valor político. Mas Falcão terá um problema maior que administrar os interessados em cargos: provar que a proximidade com o Palácio Tiradentes produzirá resultados para o Alto Paranaíba. Porque político do interior em Belo Horizonte costuma ter duas opções: voltar com investimentos ou retornar com fotografias. A segunda é muito mais fácil de conseguir.

PÃO DE QUEIJO COM CERTIDÃO IDEOLÓGICA

Em Patrocínio, a estupidez política resolveu disputar espaço no balcão das lojas. Listas de boicote a estabelecimentos apontados como simpatizantes do PT circularam pelo WhatsApp, levando dirigentes partidários a anunciar seis denúncias ao Ministério Público. A autoria das listas ainda não foi esclarecida. A novidade dessa militância de fiscalização comercial é imaginar que o comerciante precisa revelar o voto antes de vender mercadoria. O sujeito abre a loja, paga imposto, emprega gente e enfrenta concorrência. Agora ainda teria de passar por uma espécie de vestibular ideológico. Nesse ritmo, o freguês não vai mais pedir meia dúzia de pães de queijo. Vai exigir primeiro o comprovante de votação do padeiro.

A DOENÇA NÃO ESPERA A FITA

A vereadora Fernanda Castelha quer explicações sobre a reforma da UPA de Araxá e a aquisição de mobiliário. Nada revolucionário. Apenas saber quando a estrutura estará pronta para atender adequadamente a população. O problema é que, na administração pública, o calendário da obra nem sempre combina com o calendário do paciente. Anunciar reforma rende manchete. Visitar obra rende fotografia. Inaugurar rende discurso. Mas entregar tudo no prazo exige aquela atividade menos popular chamada gestão. A Prefeitura terá oportunidade de apresentar as respostas. Enquanto isso, vale lembrar que enfermidade não consulta agenda de prefeito. E paciente com dor não melhora ouvindo que a solenidade será um sucesso.

BURACO NÃO SABE POSAR

Roberto do Sindicato pediu tapa-buracos no Solaris e limpeza de uma área ambiental no Francisco Duarte, em Araxá. O prefeito Robinho recebeu, por intermédio do Legislativo, demandas que dispensariam qualquer grande estratégia de governo. Mas as pequenas providências têm um inconveniente: não permitem inauguração monumental, discurso de meia hora nem grande painel publicitário. Uma operação tapa-buracos dificilmente rende a mesma fotografia que uma obra milionária. O problema é que o motorista não dirige sobre propaganda institucional. E a cratera, indiferente à popularidade do prefeito, continua aumentando. No fim, buraco não vota, não pede cargo e não participa de reunião política. Mas consegue transformar um pneu destruído em oposição permanente.

UBERLÂNDIA E UBERABA

TODO MUNDO FELIZ, POR ENQUANTO

A Câmara de Uberlândia escolheu Sargento Ednaldo para a presidência no biênio 2027–2028, com chapa única. Pezão do Esporte, Janaína Guimarães, Helinho da Academia, Zezinho Mendonça e Jair Ferraz completam a Mesa. A harmonia foi tão eficiente que dispensou concorrência. É bonito ver vereadores de diferentes partidos reunidos em torno de um mesmo objetivo, especialmente quando o objetivo envolve os cargos da própria Mesa. O prefeito Paulo Sérgio certamente observará com interesse o comportamento da nova direção. A verdadeira prova, entretanto, virá quando houver divergências com o Executivo. Porque eleição de Mesa Diretora é semelhante a fotografia de família: todos aparecem sorrindo. A dificuldade começa quando chega a hora de dividir a herança.

VIAGEM BOA É A QUE TEM VOLTA — E RECIBO

O projeto de Marcos Jammal para dar transparência às viagens oficiais da Prefeitura de Uberaba foi aprovado pela Câmara, com nove emendas. A proposta exige informações sobre destinos, despesas, objetivos e resultados dos deslocamentos custeados com recursos públicos. A administração de Elisa Araújo poderá ter mais uma obrigação: explicar ao contribuinte o que efetivamente ganhou com cada missão. É uma exigência que deveria parecer banal, mas virou assunto político. Afinal, governos costumam retornar de viagens falando em contatos estratégicos, oportunidades futuras e intercâmbio institucional. Tudo muito elegante. Só falta transformar as expressões em benefícios verificáveis. Passagem tem preço, hotel tem diária e almoço tem nota fiscal. O resultado da viagem não pode continuar sendo a única bagagem extraviada.

A DISPUTA PELO PAI DA CRIANÇA

O plano de carreira dos servidores administrativos da educação de Uberaba ainda nem concluiu a tramitação e já promete render uma concorrida disputa por reconhecimento político. Rochelle Gutierrez cobra o envio, a administração de Elisa Araújo anuncia a proposta e a base governista se prepara para defendê-la. São cerca de 1,1 mil trabalhadores aguardando uma valorização salarial progressiva prevista em 25%. O curioso é que, durante a espera, a dificuldade sempre parece coletiva. Quando chega a notícia de avanço, os méritos começam a ganhar donos. Os servidores fizeram a reivindicação, participaram das discussões e agora querem resultado. Nada contra os discursos. Mas seria interessante lembrar que o trabalhador não paga supermercado com aplauso de vereador nem prestação da casa com fotografia de prefeito.

POLÍTICA MINEIRA

ZEMA PERDEU A CHAVE DO QUINTAL

Araxá, tradicional reduto político de Romeu Zema, ofereceu uma lição sobre a elasticidade das fidelidades eleitorais. O prefeito Robson Magela apostou em Cleitinho e Luís Eduardo Falcão, enquanto o antigo grupo governista defendia outro caminho. A vitória da chapa deu a Magela uma vantagem de articulação para o próximo governo. Resta saber se o acerto político renderá resultados administrativos. Zema continua sendo uma referência de Araxá, mas a cidade mostrou que berço político não é propriedade registrada em cartório. Na política, fidelidade costuma durar até aparecer uma pesquisa mais convincente. O curioso é que todos defendem princípios inegociáveis. Só esquecem de explicar por que esses princípios mudam de endereço depois da eleição.

ZEMA QUER LAVAR A ROUPA EM CASA

Romeu Zema entrou na discussão sobre os atritos da transição mineira defendendo discrição entre Mateus Simões e a equipe de Cleitinho. O ex-governador prefere que as divergências sejam resolvidas longe do público, enquanto Simões precisa entregar o governo e os vencedores querem conhecer a situação real das contas estaduais. A preocupação com o tom do debate é compreensível. O problema começa quando a discrição se aproxima da falta de transparência. Zema pode desejar uma passagem civilizada, mas não tem como exigir que as dificuldades financeiras sejam tratadas como assunto de família. O Palácio Tiradentes não é residência particular. E, quando a roupa suja pertence ao Estado, quem paga a lavanderia são os mineiros.

O BANQUETE E A CONTA

Cleitinho começou a discutir o secretariado e já apareceu quem tivesse disposição para enfrentar os problemas de Minas. Vittorio Medioli confirmou convite para o Planejamento e Gestão, enquanto a equipe de transição examina uma realidade fiscal nada convidativa: dívida com a União próxima de R$ 188 bilhões e déficit previsto de R$ 10,5 bilhões para 2027. É curioso como o entusiasmo por cargos sobrevive até aos números mais assustadores. No período eleitoral, todo mundo promete eficiência, investimentos e redução de despesas. Quando chega a posse, a calculadora costuma demonstrar menos entusiasmo que os cabos eleitorais. Medioli poderá receber uma das pastas mais estratégicas do governo. Mas a secretaria não acompanha varinha mágica. Cleitinho ganhou a eleição; a dívida, infelizmente, não recebeu nenhum voto e continua mandando no orçamento.

 

12. A URNA DEMITE, O GOVERNO CONTRATA

Cássio Soares, presidente do PSD mineiro, tentou trocar a Assembleia Legislativa pela Câmara Federal e acabou na primeira suplência. Foram 100.410 votos, suficientes para alimentar uma candidatura competitiva, mas insuficientes para garantir a cadeira. Agora seu nome aparece nas conversas para a Secretaria de Governo de Cleitinho. As tratativas são iniciais, e não existe nomeação confirmada. O episódio demonstra uma das maiores habilidades de sobrevivência da política brasileira: encontrar uma nova porta quando a urna fecha a anterior. Nada impede que um parlamentar experiente seja escolhido para o Executivo. O detalhe irresistível é a diferença entre a vida comum e a carreira política. O trabalhador perde uma oportunidade e atualiza o currículo. O político perde a eleição e, dependendo das alianças, pode acabar entrevistado pelo governador eleito. É o único mercado em que o desemprego eleitoral às vezes vem acompanhado de promoção.

 

 

 

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Lawrence Borges é advogado e jornalista com atuação na análise do cenário político regional e nacional.
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