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Menos currículo, mais conhecimento

Há casos em que a experiência de atuação em áreas de alta complexidade fazem toda a diferença no resultado final

Sthefano Scalon Cruvinel
Por: Sthefano Scalon Cruvinel
07/08/2023 às 15h12

Que um curso de pós-graduação, mestrado ou até mesmo doutorado dão um upgrade no currículo de um profissional, não há o que questionar. Ainda mais se a vaga ofertada for ao encontro das pretensões do candidato de crescimento na carreira. Saber demais nunca é de menos (frase estranha, né, só que faz todo o sentido).

A questão que trago hoje pra reflexão não confronta com a quantidade de certificados e diplomas uma pessoa tem, mas sim o que fazer com tudo isso. Especialmente se a área de atuação da pessoa exigir outras habilidades às quais ela dispõe apenas de um conhecimento empírico ou superficial. Ou seja, que serventia terá um diploma de medicina, com especialização em traumatologia, para um analista de sistemas – a não ser o fato de saber que uma má postura ao sentar pode lhe ocasionar uma hérnia ou dores futuras. E mesmo quando a pessoa atua na sua área de competência, existe o fator especialização, ou experiência, que pode fazer toda a diferença no resultado final.

Pra não estender muito, vou me ater a um exemplo de áreas onde mais atuo para facilitar o raciocínio. Como especialista em tecnologia e perícia técnica observo que, em muitas situações cotidianas, o conhecimento teórico ganha preferência numa ocasião em que se exige do profissional a mesma habilidade prática no exercício do ofício para se alcançar um resultado eficiente e justo.

Como perito técnico sou chamado por uma das partes para atuar em diversos processos judiciais envolvendo prestação de serviços que não geraram o resultado prometido e que, portanto, exige um trabalho específico de auditoria em sistemas operacionais, relatórios e documentos para comprovar que tal contratação acarretou em prejuízo ao cliente, quando na verdade deveria ter sido o contrário.

O Judiciário brasileiro, por exemplo, é muito carente de pessoas com um entendimento profundo sobre temas complexos que forneça subsídios às decisões judiciais. Há nas três esferas do Judiciário um alto grau de hipossuficiência técnica dos peritos judiciais, dos juízes, desembargadores e ministros sobre temas de alta complexidade técnica.

Ou seja, há muitos processos em que o juiz precisa da ajuda de alguém com experiência prática sobre a matéria em questão e não necessariamente de um currículo extenso. Um exemplo: num processo em que se questiona a ineficiência de um software de gestão adquirido por uma empresa, que tipo de perito seria o mais indicado para auxiliar o juiz? O que tem diploma de Ciência da Computação? Ou o que se formou em Engenharia Civil? Ou ainda um profissional que fez Sistema de Informação? Se nenhum desses peritos trabalhou numa grande empresa de tecnologia e nem participou da implantação de um sistema semelhante ao que está periciando, então como ter a certeza de que irá produzir um laudo com riqueza de detalhes para que o magistrado tenha entendimento suficiente para tomar uma decisão e aplicar uma sentença justa?

Aqui vale uma pauta para textualizar a questão. Como amicus curiae (amigo da Corte, em latim) de Tribunais Superiores (STJ e STF), tive a oportunidade de auxiliar magistrados em temas relevantes e específicos, fornecendo subsídios que não só facilitaram a compreensão como também ajudaram a mudar o entendimento do Judiciário. Uma das ações que participei contribuiu para se criar uma jurisprudência em casos envolvendo a entrega de produtos tecnológicos. Em meados de 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que não existe entrega parcial, o que até então era admissível pelos tribunais. Ou se entrega um sistema de gestão por completo e operando na sua totalidade, dentro dos prazos e finalidades acordados em contrato, ou o cliente tem que ser ressarcido.

Retomando o raciocínio, a questão de se indicar um perito judicial com experiência no assunto que levou à abertura do processo é essencial para visualizar a situação como um todo e dentro das evidências existentes nos autos se chegar a uma conclusão técnica. Porque senão, a probabilidade de ter um laudo inconclusivo ou eventualmente injusto com alguma das partes é muito alta. Situação essa que acaba fomentando o sentimento de desconfiança do Judiciário

O ideal é que, ao nomear um perito judicial, se leve em consideração a experiência desse profissional com a área. Ou então, que uma ou ambas as partes contratem uma assessoria técnica especializada para dar esse suporte ao perito do juízo. Em centenas de processos que atuei já me deparei com situações em que o autor da ação estava com laudo desfavorável, sujeito a uma sentença de condenação simplesmente porque o perito judicial foi convencido pela outra parte de que o serviço havia sido entregue e, portanto, não havia o que se pedir de ressarcimento. Mas, uma perícia no sistema operacional e uma auditoria nos dados da empresa que forneceu o produto foram suficientes para demonstrar a sua responsabilidade e reverter o laudo a favor do contratante. Não se trata aqui de fazer uma crítica ao trabalho do perito do juízo, e sim à falta de visão do próprio Judiciário que não se atentou à necessidade de ter alguém com habilidade específica. O fato de eu ter trabalhado com algumas big techs, conhecer a fundo um sistema de RP e as entrelinhas de um contrato de prestação de serviço nessa área fizeram toda a diferença.

E o que é mais impressionante nisso tudo nem é a complexidade do tema, mas a falta de conhecimento do mercado em recorrer a um profissional com experiência para auxiliar na busca pelos seus direitos. Só para ficar num exemplo do tanto que a obtenção de provas é relevante no sucesso de uma ação envolvendo tecnologia, cito aqui o caso de um dos processos mais recentes. Nele, conseguimos fazer com que um pedido de R$ 400 mil de indenização – em que o cliente já estava com laudo desfavorável e foi revertido com a nossa intervenção – se transformasse num acordo de R$ 4,5 milhões a seu favor. Num gesto que até me surpreendeu, a ré no processo chegou a pedir desculpas pelo serviço mal executado, após ter tido acesso às provas apresentadas pela nossa perícia técnica.

Diante de tudo, agora falando como empresário, sou mais conhecimento e menos currículo na hora de selecionar os meus colaboradores.

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Sthefano Scalon Cruvinel é especialista em tecnologia, fundador do Grupo Cruvinel e da EvidJuri, escritório especializado em perícia, assistência técnica, consultorias e laudos. A coluna tem o objetivo de compartilhar conhecimento e experiências práticas sobre iniciativas inovadoras e compreensão da importância da tecnologia na atualidade.
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