

Nesse último feriado do Dia de Finados me peguei numa curiosa reflexão que gostaria de compartilhar publicamente aqui neste artigo. Ocorre que a data serve para lembrarmos de que a morte não é o fim. É quando a comunidade cristã comemora todos os fiéis que faleceram neste mundo e reconhece a grande esperança na ressurreição. É um dia de orar pelos mortos que partiram desta vida e foram para outro plano, ao lado do Criador. Mas pensei: será que é isso que a maioria das pessoas deseja, deixar essa vida e ir morar no céu? Será que se pudessem escolher não iriam preferir continuar aqui na terra? Pelo menos essa é a vontade de muita gente, a conquista da vida eterna, cada vez mais animada pelo resultado de pesquisas e avanços tecnológicos em torno da questão.
Essa é a realidade. À medida que a tecnologia avança exponencialmente, os cientistas e tecnólogos começam a explorar cada vez mais a possibilidade de transcender a mortalidade humana – uma perspectiva que há muito, desde os primórdios da humanidade, cativa pensadores e cientistas.
Da minha reflexão citada inicialmente ficou a pergunta: A vida eterna está ao nosso alcance? Diante dessa interrogação, fui me informar mais sobre o assunto e descobri um movimento de pensadores e ativistas que se intitulam “transumanistas”. (explico depois).
Primeiramente, preciso informar que o terceiro homem mais rico do mundo, o empresário Jeff Bezos, fundador da Amazon, está voltando sua atenção para a longevidade. Notícias dão conta que ele tem investido pesadamente em pesquisas sobre esse tema e em projetos “antienvelhecimento”, com a pretensão de decifrar o código do declínio relacionado à idade, uma vez que essa medida também envia um sinal claro a muitas outras figuras proeminentes. Para liderar seu empreendimento audacioso, a startup de tecnologia Altos Labs, ele recorreu a Hal Barron, da Glaxo Smith Kline, para sua experiência no que poderia ser um divisor de águas - uma compreensão e uma derrota definitiva do envelhecimento.
Isso é possível? O que a ciência nos diz sobre nossas perspectivas? Uma coisa que parece certa nos próximos anos é que veremos pesquisas potencialmente revolucionárias na luta contra a marcha implacável do tempo.
Por ora, mesmo que seja demasiadamente cedo para dizer exatamente quais poderão ser os planos de Jeff Bezos, ou se levarão a quaisquer avanços reais no campo da extensão da vida, o seu interesse mostra que podemos estar prestes a entrar numa era em que a elite rica utiliza os seus recursos para tentar prolongar a vida indefinidamente. Com pessoas tão poderosas ultrapassando os limites da tecnologia atual, em breve será possível que os humanos vivam muito mais tempo do que se pensava anteriormente.
Mas, voltando à questão vida eterna. É aqui que entra os transumanistas. Embora acreditemos que a morte é como as coisas devem ser, que todos devemos morrer, como seria se a morte não fosse mais uma certeza? Essa é a questão central do movimento transumanista.
O transumanismo é uma visão de mundo e um movimento que defende o aprimoramento humano radical através de meios tecnológicos. Muitos transumanistas e futuristas afirmam que os humanos estão progredindo para um momento chamado Singularidade, onde a imortalidade digital será alcançada e a Inteligência Artificial Geral (IAG) ultrapassará a inteligência humana. Os entusiastas da Singularidade antecipam que esse evento não só nos concederá a imortalidade através de meios tecnológicos, mas que viveremos ao lado, e possivelmente como, de seres artificiais superinteligentes. A visão transumanista de uma humanidade futura transformada tem atraído muitos apoiadores (e opositores) dos mais diversos segmentos, tanto dentro como fora do mundo acadêmico.
Diante do que sabemos hoje, seria esse tal transumanismo um sonho utópico? Como isso difere da crença na vida após a morte? (Hoje, cerca de 85% da população mundial acredita em alguma forma de vida após a morte). Num mundo onde a ciência e a tecnologia alteram as nossas vidas em ritmo frenético, e onde muitos acreditam que a humanidade superará a morte nos próximos 30 anos – será que a visão da humanidade sobre a morte terá de se adaptar, ou mesmo ser totalmente rejeitada? Na verdade, tudo pode ter que ser um pouco dos dois.
Poderia então a tecnologia derrotar a morte?
Sim, considerando o conceito do transumanismo, que é descrito como um movimento que visa transformar a condição humana através do desenvolvimento e disponibilização de tecnologias sofisticadas, para melhorar as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas, a fim de melhorar e prolongar a vida. Nesse âmbito, pensadores e ativistas transumanistas estudam os benefícios e perigos potenciais das tecnologias emergentes que poderiam superar as limitações humanas como o envelhecimento, a deficiência e a doença.
O princípio mais aceito do transumanismo é que os seres humanos um dia se transformarão em diferentes seres pós-humanos com capacidades físicas e psicológicas ampliadas que prolongarão a vida indefinidamente. Isto faz parte do que alguns transumanistas chamam de Singularidade, como já foi dito. O termo foi cunhado pelo escritor de ficção científica Vernor Vinge, e o conceito foi popularizado por futuristas como Ray Kurzweil (que não se identifica como transumanista). Eles esperam que a Singularidade ocorra em algum momento do século 21 (2045 para ser exato), embora as estimativas variem.
Por outro lado, como movimento filosófico e cultural, o transumanismo atua como um amplo guarda-chuva para várias comunidades, que incluem pessoas que se identificam como transumanistas, futuristas, ciborgues, biohackers, cyberpunks, grinders, imortalistas e outros mais.
Para finalizar, deixo abaixo algumas reflexões...
O que tudo isso, essa busca pela vida eterna, significa no mundo de hoje? Estará a humanidade no caminho de enganar a morte de uma vez por todas, e isso é algo que realmente queremos? À medida que mais pessoas aceitam a noção transumanista de que a morte não é destino, ela poderá um dia se tornar escolha de alguém e não uma inevitabilidade?
Embora o transumanismo possa atrair os céticos ao concentrar-se na capacidade da tecnologia para curar doenças e ajudar os deficientes, há uma série de questões preocupantes que são levantadas quando confrontados com a ideia de que um dia poderíamos muito bem escapar da mortalidade. Devemos viver para sempre? O que aconteceria com os recursos da Terra? A população do planeta? O que significa ser humano?
O transumanismo foi caracterizado por um crítico, Francis Fukuyama, como uma das ideias mais perigosas do mundo, e não é difícil perceber porquê. Embora o desenvolvimento de tecnologias transumanistas esteja bem encaminhado, é difícil imaginar quão “bom” ou “mau” o nosso mundo se tornaria se pudéssemos viver para sempre. Essa é uma grande dúvida!
Independente de tudo isso, ano que vem, no dia 2 de novembro, deverei estar novamente celebrando o Dia de Finados. Celebrando o dia dos mortos que partiram para outra vida!





